quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Entrevista com Nancy Moreira, a Rainha do Ring

Foto: Antonio Ramalho | Facebook

A pugilista internacional Yvanusa “Nancy” Moreira é hoje aniversariante. São 33 anos de vida, 9 dedicados ao boxe. Há menos de uma semana trouxe da Suécia a medalha de ouro do conceituado torneio King of the Ring. Eis o principal argumento para entabularmos esta conversa.

Nancy Moreira sempre foi dada à prática desportiva, tendo-se destacado no futebol de onze, mas há 9 anos enveredou pelo boxe, influenciada pelo cunhado, que é pugilista. E ainda bem, o sucesso não tardou.

Natural da Cidade da Praia, ilha de Santiago, vive em Portugal desde os 8 anos de idade, mas não hesitou em escolher as cores de Cabo Verde na hora de representar a nação. Mas não há volta a dar, compete sempre com os dois países no coração, à vez, quando representa o seu clube ou a bandeira do país natal.

A pugilista ocupa o 16º lugar na AIBA World Ranking (Women Elite) na categoria de 69Kg. Já no continente africano é 3ª no ranking da Associação Internacional de Boxe (AIBA)Representa a Arena de Matosinhos, mas já foi atleta do Futebol Clube do Porto e da BB Team, todos no norte de Portugal.

Nancy, para começar, quero felicitá-la pela medalha de ouro conquistada no torneio King of the Ring, no dia 7 de novembro, na Suécia. Fale-nos um pouco da sua preparação para este torneio.

A preparação foi duríssima, tive de perder 10 kg para estar nesta nova categoria (66kg). Quando soube do torneio, tive de escolher se competia nos 71kg ou nos 66 kg. O meu peso normal são 69 kg e naturalmente é mais fácil para mim lutar nos 66 kg. Por norma, estamos sempre acima do peso e temos de estar sempre a perdê-lo antes de uma prova.

Não tenho palavras para descrever, foi algo duro, mas correu bem.  

Realizou três combates para a conquista da medalha, na final frente a adversária da Noruega e, antes, perante as concorrentes da Escócia e Suécia. Da sua experiência, como se sentiu nas diferentes fases competitivas?

A final é sempre mais difícil. Já chegamos mais cansadas, há a pressão, aquela responsabilidade, que pesa sempre um bocado. Só que não há como deixar de pensar na vitória, embora também se possa recear perder. O primeiro é sempre o mais fácil. Está-se bem, preparada para enfrentar a oponente e cheia de vontade de competir.

Venceu por pontos em todos os combates. Houve sempre unanimidade do júri?

No último foi uma decisão dividida.

Neste torneio, que decorreu entre os dias 5 e 7, na cidade sueca de Borås, integrou a seleção regional norte da Associação de Boxe do Porto (ABP). Recebeu apoio da Associação nessa deslocação ou teve de financiar a sua participação?

Foi do meu bolso.


As cores de Cabo Verde

Em março deste ano, conquistou a medalha de bronze com as cores de Cabo Verde, no Torneio Internacional de Boxe na Tunísia, numa altura em que a situação pandémica ainda se refletia de forma notória nos treinos e competição da maioria dos atletas. Como adaptou a sua preparação física, dada a interação que o boxe exige?

Com trabalho e dedicação, como sempre, mas não é fácil. O boxe não é um desporto muito apoiado. Eu mesma, não tenho muitos apoios. No torneio na Tunísia, mesmo estando a representar Cabo Verde, paguei do meu bolso para competir porque quero estar sempre ao mais alto nível.  Tem vindo a ser sempre assim. Quando não é um torneio de qualificação para os Jogos Olímpicos os apoios não surgem por parte das entidades competentes de Cabo Verde. Mas não podemos restringirmo-nos a esses torneios - eu e os demais atletas de nível internacional - porque dessa forma não iremos estar preparados. Temos de manter o vínculo, participar, participar, participar… para quando se chegar a uma qualificação “séria” podermos estar à altura. É evidente que todas são sérias, mas umas são mais determinantes que outras.

Repare, eu praticamente  na minha atividade profissional  trabalho para sustentar a minha modalidade.

Fale-me da seleção cabo-verdiana e das suas representações. Em 2019 conquistou a medalha de bronze na categoria de 69kg, nos Jogos Africanos que decorreram em Marrocos. Aliás, foi a única medalha para Cabo Verde na última edição dos Jogos.

Eu poderia representar Cabo Verde ou Portugal. Embora tenha nascido em Cabo Verde, aqui vivo há muitos mais anos, mas mesmo assim decidi representar o meu país de origem e sou feliz pela minha escolha. Não tenho qualquer arrependimento, é só mesmo a nível de apoios que posso reclamar, pois não recebo qualquer ajuda. Não sei se no início de 2022 irei ter o apoio do Comité Olímpico e as coisas tomarão outro rumo. Estimo que sim, que chegaremos a bom porto, ter alguma ajuda e assim poder chegar ainda mais longe. Tenho capacidades para isso. Já dei provas do que sou capaz.

Já não tenho 20 anos, tenho um filho e uma casa para sustentar. Já não dá para viver apenas para este sonho. Veja, até hoje estou a reclamar o meu prémio nos Jogos Africanos, que ainda não chegou, montante esse que seria usado para preparar as minhas competições. E embora não tenha de ser necessariamente aplicado nesse fim, o prémio é meu, deverei/poderei fazer dele o que quiser, mas é claro que esse dinheiro serviria para me capacitar ao mais alto nível. Continuo à espera.

Não é a primeira atleta a queixar-se da falta de pagamento dos prémios, depois de ser medalhada(o) com as cores de Cabo Verde. É algo que já vamos ouvindo falar. Tem questionado oficialmente a situação?

Sim, claro, enviei uma carta, já falei sobre o assunto. Só que não sou de estar nas redes sociais a falar destas questões. Não é muito o meu género, embora seja um direito. Eu vou esperar…

Que competições tem programadas nos próximos tempos ?

Em dezembro vou ter um combate na “minha” cidade, em Matosinhos, com uma atleta que vem de fora. Em Portugal já não tenho adversárias, o que onera os custos da competição, pois é o meu treinador que investe em mim, que prepara tudo, paga a deslocação, estada e alimentação da atleta que vem. E porque já não posso competir em Portugal, tendo de ir para fora, o que tem um custo alto.

Em 2022, naturalmente, vou tentar competir o máximo possível.

Isso significa que já não tem adversárias para combater ao seu nível dentro do país?

Sim.

Nos Jogos Olímpicos de Tóquio’2020, que análise faz da prestação do único atleta cabo-verdiano que competiu na modalidade que representa?

Uma prestação muito boa, do David Pina (categoria 52Kg, recebeu um wild card por parte do Comité Olímpico Internacional), um atleta muito bom, muito humilde. Recordo da nossa presença em Dakar, na última qualificativa, e da sua excelente prestação na competição.

[Em 2020, em Dakar, Senegal, perdeu por 3-2 com o atleta que viria a ser prata. Já na sua estreia nos Jogos Olímpicos, perdeu por diferença mínima ante o campeão olímpico (2016) e mundial (2019) Zoirov Shakhobidin, do Uzbequistão.]

Que sonhos acalenta na sua carreira futura?

O meu sonho é mesmo levar uma medalha olímpica para o meu país, para o meu povo. Direi mais, tanto para o meu povo de Cabo Verde como para o meu povo de Portugal. O meu coração está dividido. Lutarei pelos dois países, não é só para um.

Filomena Paris

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