
Foto: Antonio Ramalho | Facebook
A pugilista internacional Yvanusa “Nancy” Moreira é hoje aniversariante. São 33 anos de vida, 9 dedicados ao boxe. Há menos de uma semana trouxe da Suécia a medalha de ouro do conceituado torneio King of the Ring. Eis o principal argumento para entabularmos esta conversa.
Nancy
Moreira sempre foi dada à prática desportiva, tendo-se destacado no futebol de
onze, mas há 9 anos enveredou pelo boxe, influenciada pelo cunhado, que é
pugilista. E ainda bem, o sucesso não tardou.
Natural
da Cidade da Praia, ilha de Santiago, vive em Portugal desde os 8 anos de
idade, mas não hesitou em escolher as cores de Cabo Verde na hora de representar
a nação. Mas não há volta a dar, compete sempre com os dois países no coração,
à vez, quando representa o seu clube ou a bandeira do país natal.
A pugilista ocupa o 16º lugar na AIBA World Ranking (Women Elite) na categoria de 69Kg. Já no continente africano é 3ª no ranking da Associação Internacional de Boxe (AIBA). Representa a Arena de Matosinhos, mas já foi atleta do Futebol Clube do Porto e da BB Team, todos no norte de Portugal.
Nancy, para começar, quero felicitá-la pela medalha de ouro conquistada no torneio King of the Ring, no dia 7 de novembro, na Suécia. Fale-nos um pouco da sua preparação para este torneio.
A
preparação foi duríssima, tive de perder 10 kg para estar nesta nova categoria
(66kg). Quando soube do torneio, tive de escolher se competia nos 71kg ou nos 66
kg. O meu peso normal são 69 kg e naturalmente é mais fácil para mim lutar nos
66 kg. Por norma, estamos sempre acima do peso e temos de estar sempre a perdê-lo
antes de uma prova.
Não
tenho palavras para descrever, foi algo duro, mas correu bem.
Realizou três combates para a conquista da medalha, na final frente a adversária da Noruega e, antes, perante as concorrentes da Escócia e Suécia. Da sua experiência, como se sentiu nas diferentes fases competitivas?
A
final é sempre mais difícil. Já chegamos mais cansadas, há a pressão, aquela
responsabilidade, que pesa sempre um bocado. Só que não há como deixar de
pensar na vitória, embora também se possa recear perder. O primeiro é sempre o
mais fácil. Está-se bem, preparada para enfrentar a oponente e cheia de vontade
de competir.
Venceu
por pontos em todos os combates. Houve sempre unanimidade do júri?
No último foi uma decisão
dividida.
Neste torneio, que decorreu entre os dias 5 e 7, na cidade sueca de Borås, integrou a seleção regional norte da Associação de Boxe do Porto (ABP). Recebeu apoio da Associação nessa deslocação ou teve de financiar a sua participação?
Foi do meu bolso.
As cores de Cabo Verde
Em
março deste ano, conquistou a medalha de bronze com as cores de Cabo Verde, no
Torneio Internacional de Boxe na Tunísia, numa altura em que a situação
pandémica ainda se refletia de forma notória nos treinos e competição da
maioria dos atletas. Como adaptou a sua preparação física, dada a interação que
o boxe exige?
Com
trabalho e dedicação, como sempre, mas não é fácil. O boxe não é um desporto
muito apoiado. Eu mesma, não tenho muitos apoios. No torneio na Tunísia, mesmo
estando a representar Cabo Verde, paguei do meu bolso para competir porque quero
estar sempre ao mais alto nível. Tem
vindo a ser sempre assim. Quando não é um torneio de qualificação para os Jogos
Olímpicos os apoios não surgem por parte das entidades competentes de Cabo
Verde. Mas não podemos restringirmo-nos a esses torneios - eu e os demais atletas de nível internacional - porque dessa forma
não iremos estar preparados. Temos de manter o vínculo, participar, participar,
participar… para quando se chegar a uma qualificação “séria” podermos estar à
altura. É evidente que todas são sérias, mas umas são mais determinantes que
outras.
Repare, eu praticamente – na minha atividade profissional – trabalho para sustentar a minha modalidade.
Fale-me da seleção cabo-verdiana e das suas representações. Em 2019 conquistou a medalha de bronze na categoria de 69kg, nos Jogos Africanos que decorreram em Marrocos. Aliás, foi a única medalha para Cabo Verde na última edição dos Jogos.
Eu
poderia representar Cabo Verde ou Portugal. Embora tenha nascido em Cabo Verde,
aqui vivo há muitos mais anos, mas mesmo assim decidi representar o meu país de
origem e sou feliz pela minha escolha. Não tenho qualquer arrependimento, é só
mesmo a nível de apoios que posso reclamar, pois não recebo qualquer ajuda. Não
sei se no início de 2022 irei ter o apoio do Comité Olímpico e as coisas tomarão outro rumo. Estimo que sim, que chegaremos a bom porto, ter alguma ajuda e assim
poder chegar ainda mais longe. Tenho capacidades para isso. Já dei provas do
que sou capaz.
Já
não tenho 20 anos, tenho um filho e uma casa para sustentar. Já não dá para
viver apenas para este sonho. Veja, até hoje estou a reclamar o meu prémio nos
Jogos Africanos, que ainda não chegou, montante esse que seria usado para
preparar as minhas competições. E embora não tenha de ser necessariamente
aplicado nesse fim, o prémio é meu, deverei/poderei fazer dele o que quiser, mas
é claro que esse dinheiro serviria para me capacitar ao mais alto nível.
Continuo à espera.
Não é a
primeira atleta a queixar-se da falta de pagamento dos prémios, depois de ser medalhada(o)
com as cores de Cabo Verde. É algo que já vamos ouvindo falar. Tem questionado
oficialmente a situação?
Sim,
claro, enviei uma carta, já falei sobre o assunto. Só que não sou de estar nas
redes sociais a falar destas questões. Não é muito o meu género, embora seja um
direito. Eu vou esperar…
Que
competições tem programadas nos próximos tempos ?
Em dezembro vou ter um combate na “minha” cidade, em Matosinhos,
com uma atleta que vem de fora. Em Portugal já não tenho adversárias, o que
onera os custos da competição, pois é o meu treinador que investe em mim, que prepara
tudo, paga a deslocação, estada e alimentação da atleta que vem. E porque já
não posso competir em Portugal, tendo de ir para fora, o que tem um custo alto.
Em 2022, naturalmente, vou
tentar competir o máximo possível.
Isso
significa que já não tem adversárias para combater ao seu nível dentro do país?
Sim.
Nos Jogos
Olímpicos de Tóquio’2020, que análise faz da prestação do único atleta
cabo-verdiano que competiu na modalidade que representa?
Uma
prestação muito boa, do David Pina (categoria 52Kg, recebeu um wild card
por parte do Comité Olímpico Internacional), um atleta muito bom, muito
humilde. Recordo da nossa presença em Dakar, na última qualificativa, e da sua
excelente prestação na competição.
[Em 2020, em Dakar, Senegal, perdeu por 3-2
com o atleta que viria a ser prata. Já na sua estreia nos Jogos Olímpicos, perdeu por diferença mínima ante o
campeão olímpico (2016) e mundial (2019) Zoirov Shakhobidin, do
Uzbequistão.]
Que sonhos
acalenta na sua carreira futura?
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