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| Raffaela Gozzelino, Maria D'Assis Almeida e Yara dos Santos |
Com Raffaela Gozzelino e Yara dos Santos, mas não só.
A ocasião pedia. O 27 de março, Dia da Mulher Cabo-verdiana, fora assinalado dois dias antes. Para celebrar a data, no dia 29 a Associação Cretcheu, em Almada, recebeu uma conversa aberta para se falar sobre a “Mulher: Conciliação entre a vida pessoal e a carreira profissional”, pelas vozes de Raffaella Gozzelino, filha da diáspora, e de Yara dos Santos, filha e residente na terra-mãe. Mas também se quis ouvir sobre o percurso de quem intermediou a conversa, de Maria D´Assis Almeida, filha das ilhas, que vive em Portugal desde os anos 70 do século passado.
Para começar, teve a palavra a escritora e ativista social Yara dos Santos, que colocou as seguintes perguntas:
– Será que a mulher tem de abdicar da vida pessoal para se afirmar e ter sucesso profissional? A minha participação pública significa abrir mão da minha vida pessoal/familiar? Para assegurar o lado pessoal e familiar terei de perder oportunidades na esfera profissional?
Não lhe passa pela cabeça ter de abdicar de qualquer uma das partes que a compõem. Ser mãe de três, ser companheira, ser uma profissional em diferentes frentes e ser mulher antes de tudo. Frisa neste último ponto que faz questão de afirmar o seu lado feminino, de se produzir para todos os eventos que vai. Primeiro, por que gosta. Depois – diz quem escreve – porque não deve satisfações a ninguém: “tenho o direito de me arranjar e de não estar sujeita a qualquer assédio”.
Para Yara dos Santos, “o empoderamento da mulher é o empoderamento da família”. Claro, que “o meu equilíbrio deve-se ao apoio do meu marido e da minha família.” Mas mais determinante é “não deixarmos que a pressão social afete o nosso papel como mulheres”, reconhecer-se “que cada ser tem o seu valor e que cada um pode contribuir para um mundo melhor”.
Em 2018, Yara dos Santos foi considerada uma das 100 jovens personalidades mais influentes da África Ocidental. A ativista sente-se uma privilegiada por poder partilhar a sua experiência pessoal em diversas partes do mundo, sobretudo junto das comunidades cabo-verdianas.
Raffaella Gozzelino interveio a seguir. É uma cientista consagrada internacionalmente em Biologia Celular/Neurobiologia. Acredita que nenhuma mulher “tem de abdicar de o ser para singrar profissionalmente”.
Reconhece que nos dias de hoje há um enfoque na problemática da mulher, mas destaca a sua área – a das Ciências – onde o mundo masculino prevalece nas posições de liderança e nas oportunidades de desenvolvimento de carreira. Refere-se a Portugal, em particular, onde as mulheres são a maioria, enquanto estudantes, nas licenciaturas, especialidades e doutoramentos. Por isso, considera que não é fácil: “Só poucas conseguem ir em frente, muito provavelmente por falta de apoio familiar”.
No seu caso em particular, do marido ‘herdou’ família alargada. Trabalham juntos no seu Laboratório e costuma acompanhá-la nas viagens de trabalho: “Estou num mundo completamente masculino. Por vezes, nas reuniões só há uma ou duas mulher(es) e 20 homens”.
“O sistema ainda favorece essa desigualdade. Há necessidade de haver outra mentalidade.” No caso dos casais, são dois. “É preciso muita organização, mas com a pessoa certa ao lado, com a motivação que o parceiro nos dá, com o apoio da família, sim, nós conseguimos.” Repete as últimas palavras em inglês “Yes, we can” (Obama) e cita Mandela: “A winner is a dreamer, who never give up/Um(a) vencedor(a) é um sonhador(a) que nunca desiste”.
Raffaella Gozzelino viaja continuamente, falta-lhe tempo para socializar, ir a eventos. Mas não arrepia caminho. Está grata e quer retribuir, aos pais, particularmente à mãe, e a tantos outros. “Não é só satisfação pessoal. Também é um peso que carrego” – di-lo com orgulho.
Deve o seu sucesso “à mãe, que emigrou de Cabo Verde para Itália”, e aos que das ilhas partiram e “chegaram a ter profissões de destaque”. Inspiram-na. “Tenho sempre presente que se sacrificaram no verdadeiro sentido do termo, através do trabalho, da conquista de um lugar, porque, antes, nós – os africanos – não tínhamos esse direito.” E, olhando ainda para um passado mais longínquo, afirma:
– Quero honrar quem perdeu a vida para termos esse direito (de ser), mostrar ao mundo que podemos chegar lá.
Depois foi a vez de Maria D´Assis Almeida, assistente social, de formação. É diretora coordenadora técnica da Santa Casa da Misericórdia de Almada (SCMA). Em Cabo Verde foi criada no meio de homens, e os pais fizeram questão de a mandar para Portugal para prosseguir os estudos. Chegou a Portugal em 1973 e ficou. É mãe.
Eram outros tempos. “As associações de solidariedade eram um mundo dos homens. Entrei numa boa altura, quando Portugal aderiu à Comunidade Económica Europeia” (União Europeia, hoje bem alargada). “Na época, a SCMA tinha 100 utentes por mês, hoje tem 4000/mês. A direção é composta por muitos homens mas, de uma forma geral, grande parte dos cargos de chefia estão a ser assumidos por mulheres.” Dos 422 colaboradores, cerca de 85 por cento são mulheres. Os outros tempos também se refletiram na vida familiar, “se calhar a vida pessoal foi penalizada”, diz.
Maria D'Assis, a par da sua dedicação ao empreendedorismo social, há muito que abraçou a vida política a nível autárquico.
Filomena Paris
Nota: Gabinete de Apoio à Inclusão Social dos Cabo-verdianos (GAIS-CV) e Cretcheu – Associação Caboverdeana de Almada foram os promotores da “conversa aberta”

Excelente, interessante como a Filomena Paris, trás o resumo de uma conversa aberta em que duas mulheres Yara dos Santos e Raffaela Gozzelino de áreas profissionais distintas, analisaram a problemática da Conciliação entre a vida familiar e profissional.
ResponderEliminarA voz da experiência pela longa caminhada nessa vida profissional Maria d'Assis Almeida, mediadora da conserva deu uma achega importante.
Todos nós temos consciência de uma coisa. Mudar o paradigma tem que ser com mulher e homem/homem - mulher lado a lado e a aposta começa na educação do filho de hoje e homem de amanhã.
As histórias de vida relatadas na primeira pessoa, certamente contribuíram para uma reflexão profunda dos participantes.